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Grupo de engenheiros projeta em São José dos Campos, no interior de São Paulo, uma nova aeronave de transporte leve

O grupo é formado por projetistas que atuaram em programas da maior indústria aeronáutica do Hemisfério Sul. O projeto ATL – Aeronave de Transporte Leve – refere-se a um avião bimotor de asa alta, tradicional, empenagem convencional, estrutura semi-monocoque com seção central da fuselagem em material metálico, não pressurizado, superfícies de comando e partes não estruturais em material composto, trem de pouso triciclo fixo e alcance de até 1600 km, podendo operar a partir de pistas curtas e rústicas, com velocidade média de cruzeiro de 300 km/h.

Evandro Fernandes Fileno, um dos projetistas, fala sobre o início do projeto:

“Em 2012, houve um concurso no Paraná que visava premiar um projeto moderno e inovador. Na aviação regional, a maioria das aeronaves com capacidade para 19 assentos eram projetos da década de 1960. Estimulado pelo decreto n° 6780 de 18/02/2009, que incentiva o desenvolvimento e a expansão dos serviços aéreos prestados em ligações de baixa e media densidade de tráfego, a fim de aumentar o numero de cidades e municípios atendidos pelo transporte aéreo, passei a trabalhar no projeto. Não ganhei o concurso, mas o trabalho que apresentei chamou a atenção dos jurados. Afinal, em poucos anos haverá uma demanda por aeronaves dessa categoria, em razão do envelhecimento da frota atual em serviço”.


Dois anos depois, Fileno soube que o Exército Brasileiro havia decidido comprar aeronaves desse tipo para operações na Amazônia, Fileno convidou dois amigos, com os quais trabalhou na EMBRAER, ambos com experiência profissional fundamental ao aprimoramento do projeto, para participarem da empreitada. Um quarto profissional, engenheiro aeronáutico, fechou o grupo. Com recursos próprios, criaram a empresa DESAER - Desenvolvimento Aeronáutico Ltda, para desenvolver o projeto.

Segundo Fileno, o projeto é 100% brasileiro e pode atender as demandas das Forças Armadas e do transporte aéreo regional do país e de países vizinhos. Ainda segundo o projetista, a aeronave terá baixo custo de aquisição, operação e manutenção, voando em transporte de carga e de passageiros. Por se tratar de aeronave bimotor, enfatiza, apresenta maior segurança de voo em regiões remotas, como a Amazônia.

O projeto, no entanto, chegou tarde ao Exército. Em 2016, uma comitiva do Comando Logístico visitou os EUA, ocasião em que recebeu uma oferta do Exército norte-americano para adquirir aviões C-23B Sherpa, proposta esta financiada a longo prazo, pelo sistema FMS (Foreign Military Sales) americano. As aeronaves tinham sido retiradas do serviço na Guarda Nacional naquele ano, e estavam em bom estado de conservação, conforme atestou a comitiva militar brasileira. O comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, autorizou a compra de nove C-23B, sendo que duas unidades estão sendo entregues e as demais estão em processo de revitalização para posterior entrega.

A vantagem de adquirir material militar pelo sistema FMS é o longo prazo que é oferecido para pagamento, que pode chegar a até 15 anos. O preço negociado também é atraente, sobretudo para forças armadas de baixo orçamento militar. As aeronaves em questão têm vida útil estendida entre 10 e 15 anos. Comenta-se que o Exército pagará cerca de 54 milhões de dólares pela compra dos nove aviões e pelos serviços de manutenção e revisões periódicas.

Experiência profissional

Ao longo dos anos, os quatro projetistas trabalharam em desenvolvimento de aeronaves.

Evandro Fileno cursou engenharia civil. Técnico em Mecânica de Aeronaves (célula), Eletrotécnico e Processador de Dados, ele iniciou a carreira no setor automotivo, criando dispositivos para linhas de produção. No segmento de Defesa, participou do projeto Astros 2020, da Avibras Aeroespacial, e em projetos de desenvolvimento de Veículos Aéreos Não-Tripulados. Entre os anos de 1997 e 2008, atuou em diversos projetos de estrutura de aeronaves (AL-X, EMB-170/190, Phenon 100/300 e outros).

Sergio Alcântara cursou engenharia elétrica. Técnico em Desenho Mecânico especializou-se em integração, análise e layout de sistemas de aeronaves. De 1982 a 2016, trabalhou em equipe na busca de soluções eletromecânicas integradas para os aviões EMB314, 145, 170/190/195/175, 500/505, KC390 e A&W. Participou da instalação eletromecânica de armamentos, radares, antenas e equipamentos de contramedidas e em anteprojetos de sistemas elétricos (EMB120, 145, 312H, 314, AMX, 170/175/190/195) e para aeronaves inteligentes do Projeto Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam).

Israel da Silva é engenheiro civil. Iniciou a carreira como desenhista-mecânico da Japan Steel Tower, em projetos de torres e de subestações de alta tensão. De 1976 a 1980 e de 1982 a 2016, integrou as equipes que desenvolveram superfícies para o Brasília, Xingu, Tucano, Legacy, Phenom, KC390 e EMB-170 e comandos de voo primários para o EMB-145 e CBA-123. Participou de anteprojeto para solução de aumento de combustível de aeronaves e em sistemas mecânicos. Desenvolveu patente de flap rotativo com movimento streanwise e soluções aerodinâmicas, com patente de pilone curvo para as aeronaves 195 E-2.

Ernesto Yo Hayashi é engenheiro aeronáutico, com mestrado em engenharia pelo Instituto Tecnológico de Nagoya, no Japão. Ingressou na EMBRAER em 1983, onde foi engenheiro de Planejamento e Controle e de Ensaios em Voo (NTPS). Na VASP (1996-1998) coordenou o Programa de Manutenção da frota de aviões MD-11 da companhia. Ao retornar a EMBRAER, foi engenheiro de desenvolvimento de produtos, administrador de programas, coordenador de desenvolvimento de projetos e de cotações e gestor de planejamento e controle, funções que exerceu até 2013, quando se desligou da empresa. Desde então, presta consultoria de certificação aeronáutica e de projetos de Defesa. É sócio da empresa H2 Consultoria, de assessoria em gestão de projetos, prazos, custos e certificação aeronáutica.

Ficha técnica     

Na categoria projetada para o ATL, atuam o Bandeirante (Brasil), o LET L410 UVP (República Tcheca), o DHC6-400 (Canadá) e o Cessna 208 Caravan (EUA). Os três primeiros são bimotores e seus projetos remontam a década de 1960. O Caravan é monomotor, criado nos anos 1980. Todos estão chegando ao final de vida útil ou em vias de passar por processos de revitalização, o que alimentam as perspectivas dos projetistas do ATL quanto às demandas futuras nesse mercado de aeronaves.

O ATL terá peso máximo de decolagem de 5900 kg e máximo de pouso de 5650 kg. A tripulação será de 1 ou 2 pilotos e transporte de 18 passageiros, alcance de 1600 km e teto máximo de 7.620 metros. Terá dois motores Pratt & Whitney Canadá PT6A-34, estágio único, turbina livre, e hélices Hartzell HC-B3TN-3DY, de passo variável, atingindo velocidade máxima de cruzeiro de 170 kt (TAS ao nível do mar) e a 10.000 pés, 182 kt. Metalizado (exceto o sistema de mecanismo), sua envergadura será de 16.2 metros e comprimento de 15.5 metros.

A suíte aviônica, padrão Honeywell, inclui sistema de referência de Atitude de Dados (ADAHRS), Rádios Digitais (MMDR), Radar Meteorológico (WX), Altímetro, GPS, Sistema de Alerta Classe A (TAWS), Transponder, Sistema de Prevenção contra Colisão de Tráfego (TCAS I), Equipamento de Medição de Distância (DME), Sistema de Instrumentos em Espera (ESIS), Bússola de Espera, Transmissor Localizador de Emergência (ELT), Gravador de Voz de Cabine (CVR) e Gravador de Dados de Voo (FDR).

Expectativas

Com a mesma convicção ao propalar que sol a pino não faz sombra, os projetistas do ATL estão confiantes que a aeronave terá condições de operar em qualquer região do país, a partir de pistas curtas e rudimentares, contribuindo com maior velocidade na integração de municípios mais distantes e isolados dos grandes centros urbanos. Estimam que no prazo de seis anos a aeronave poderá ser apresentada ao mercado, expectativa que passa necessariamente pelos caminhos da obtenção de financiamento para instalação da complexa estrutura industrial e para as etapas de desenvolvimento, testes de avaliação, homologação.

O desafio é maior devido à forte recessão, sem precedentes, que ainda atinge a economia nacional, depois de atirar no desemprego milhões de brasileiros em muitos setores da produção, sobretudo na área industrial. Segundo os economistas, para reverter quadros de dificuldades dessa intensidade, o incentivo não pode deixar de acompanhar os passos de quem quer empreender e gerar empregos com novas tecnologias e somar-se ao processo de recuperação da economia e de desenvolvimento social do país.

Vale lembrar que, na histórica Grande Depressão dos Estados Unidos, nos anos 1930, a Small Business Administration alavancou pequenos empreendedores, visando superar a crise então vivida pelos norte-americanos, muitos dos quais se tornaram com o tempo notáveis grupos empresariais. Na ocasião, a Aeronáutica e a Defesa foram segmentos exemplares na superação da crise econômica, por suas características de gerar inovações tecnológicas, cujos resultados contribuíram para o soerguimento de outros setores produtivos.
 

 

 

 

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