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De acordo com executivo-chefe da Boeing, possível negócio entre as fabricantes as tornariam mais competitivas para atuar inclusive em novos mercados.


A Boeing reiterou no começo da tarde desta quarta-feira, 31, interesse em firmar um eventual acordo com a Embraer. Em teleconferência para comentar os resultados reportados financeiros da companhia, o executivo-chefe da Boeing, Dennis Muilenburg, não entrou em detalhes sobre as conversas entre as empresas, mas destacou que a fabricante brasileira representa um "ótimo encaixe estratégico" aos planos da norte-americana, tendo em vista o caráter complementar de suas linhas de produto.

De acordo com o executivo, o possível negócio entre as duas companhias as tornariam mais competitivas para atuar inclusive em novos mercados.

Representantes do mercado vem apostando que as conversas entre Boeing e Embraer devem ganhar ritmo mais acelerado após a decisão desfavorável à fabricante norte-americana por parte da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos.

Na sexta-feira passada, o órgão rejeitou por 4 votos a 0 a queixa da Boeing de que ela teria sido prejudicada por subsídios fornecidos pelo governo canadense à Bombardier no primeiro leilão de uma nova linha de jatos para a aérea Delta Air Lines.

Com a decisão, o departamento do comércio norte-americano não poderá seguir com a proposta de impor tarifas de até 300% sobre as importações dos jatos CSeries, fabricados pela Bombardier.

Chris Higgins, do Morningstar Equity Research, vê agora chances crescentes de uma combinação entre as duas fabricantes (seja por meio de aquisição ou parceria) como resposta à associação de suas rivais Airbus e Bombardier no programa Cseries.

Para ele, a sentença contra a Boeing foi surpreendente e representou uma grande vitória para as outras duas fabricantes competidoras. "A decisão limpa o caminho para que o CSeries entre no mercado norte-americano", diz.

Esse "empurrãozinho" também tende a acelerar a aquisição, pela Airbus, de 50,01% do programa CSeries, cujo capital hoje é dividido entre a Bombardier (com 63% do total) e a entidade governamental Investissement Québec. Hoje, as atividades da parceria CSeries envolvem o desenho, desenvolvimento, fabricação, montagem, certificação e venda da família CSeries, aeronaves de corredor único com capacidade entre 100 e 150 assentos.

Nesse cenário, os analistas do JPMorgan também enxergam maior probabilidade de que um acordo entre Boeing e Embraer se concretize. "A reação positiva dos papéis da Embraer após o anúncio na sexta-feira à tarde sugere que o mercado acredita que, agora, se torna mais provável uma transação concreta entre as duas companhias", afirmam Seth M. Seifman, Michael S Rednor, Yilma Abebe e Jordan Smith, em relatório.

E a Aviação Executiva? Boeing e Embraer têm se abstido de comentar os possíveis desenhos do eventual negócio entre elas. Segundo o apurado pelo Estadão, as empresas descartaram a possibilidade de formar uma joint venture (parceria) e têm conversado sobre estruturas "mais complexas".

Executivos da Boeing estiveram no Brasil na semana passada, quando sentaram com representantes do governo brasileiro para esclarecer alguns pontos do eventual acordo.

Fontes consultadas pelo Estadão/Broadcast disseram que a Boeing pretende garantir autonomia à parceria entre Saab e Embraer na produção dos caças Gripen, transformar o Brasil num novo polo de produção de componentes de seus aviões fora dos Estados Unidos e, principalmente, manter o poder de veto do governo brasileiro na Embraer, por meio da golden share, prerrogativa contratual que dá ao governo poder de veto em decisões estratégica que envolvem a Embraer.

Nesse ambiente ainda nebuloso, analistas da indústria aeroespacial têm feito suas apostas sobre qual seria o racional estratégico da Boeing por trás do negócio com a Embraer. O principal motivo é, de certa forma, óbvio: a empresa deseja complementar seu portfólio no segmento comercial com os jatos regionais da Embraer, a líder nesse mercado, que tem visto mais concorrência com a entrada de novas fabricantes, como as asiáticas Mitsubishi e Comac. É a mesma razão pela qual a Airbus teria decidido adquirir participação majoritária no projeto CSeries da Bombardier.

Porém, os especialistas têm dificuldade de entender se a Boeing tem de fato interesse nos outros mercados em que a Embraer também opera. As dúvidas residem, notadamente, no segmento de aviação executiva, que correspondeu a cerca de 20% da receita líquida da companhia brasileira no terceiro trimestre do ano passado. A Embraer atua nesse mercado desde 2000, quando lançou o jato Legacy. Hoje, além do Legacy, a empresa vende dois outros modelos: o Phenom e o Lineage.

Os interesses da fabricante norte-americana devem determinar o desenho do futuro acordo entre as empresas - e, no limite, o rumo dos principais negócios da empresa brasileira.

Em Defesa, o interesse da Boeing é mais claro. A norte-americana já colabora com as vendas e marketing do KC-390, jato militar desenvolvido pela Embraer que tem sido apontado como um produto de grande potencial pelo mercado. "A companhia poderia também oferecer o KC-390 para a Força Aérea dos Estados Unidos como substituta a alguns do seus jatos mais velhos", aponta Chris Higgins, da Morningstar Equity Research.

Por outro lado, o analista não acredita que a Boeing está interessada no segmento de jatos executivos da Embraer. "Se, no final das contas, a Boeing não ver valor nos jatos executivos, não nos surpreenderia se ela se movesse para um desinvestimento desse segmento pós-acordo ou, pelo menos, limitasse os investimentos nesse negócio".

Em relatório publicado logo após as notícias sobre o potencial acordo, a equipe do JPMorgan mapeou que as prioridades da Boeing, em termos de fusões & aquisições, estão no aftermarket, na integração vertical e no segmento de defesa. Os analistas da casa também dizem enxergar "pouco desejo" por parte da fabricante em expandir sua atuação para o segmento de jatos executivos.

O diagnóstico também é compartilhado pelos analistas do Melius Research. "Enquanto lutamos para enxergar por que a Boeing desejaria jogar no mercado de jatos executivos, as competidoras da Embraer certamente não gostariam de ver os benefícios da expertise, do capital e suporte da Boeing que seriam agregados ao que se tornaria uma estrutura de custo menor para a Embraer", escrevem Carter Copeland, Ryan Eldridge e Paige Tanenbaum.

A equipe do Melius Research destaca ainda a postura agressiva da Boeing nos últimos anos, seja com fornecedores, competidores, consumidores ou governos. "A Boeing está simultaneamente avançando em diversas frentes para aumentar de forma sustentável seus retornos de longo prazo".

Na teleconferência de hoje, os executivos da Boeing reforçaram o compromisso de perseguir oportunidades com o objetivo de maximizar ganhos a seus acionistas, com foco em crescimento orgânico e investimentos.

Independentemente da estruturação do eventual negócio, o lado financeiro não seria um problema para a Boeing. Em sua situação atual, a fabricante conseguiria adquirir a Embraer pagando o valor de mercado da companhia e mais um prêmio razoável sem comprometer seus retornos, avaliam os analistas do setor aeroespacial. O fluxo de caixa livre da fabricante norte-americana encerrou o ano passado em US$ 11,6 bilhões, acima dos US$ 7,88 bilhões reportados em 2016.

Conversas "produtivas" com Embraer continuam, afirma Boeing¹
O presidente do conselho da Boeing, Dennis Muilenburg, disse que as negociações com a Embraer em busca de oportunidades para combinar os negócios e explorar complementaridades entre as duas empresas do setor aeroespacial continuam. O executivo ponderou, entretanto, que o plano de crescimento de longo prazo da companhia não depende dessa sociedade.

“Continuamos com conversas produtivas com Embraer. Vemos uma grande complementaridade com a empresa”, afirmou Muilenburg em teleconferência de resultados com analistas realizada na tarde desta quarta-feira.

No dia 21 de dezembro último, Boeing e Embraer soltaram comunicado informando ao mercado que negociam alternativas para combinar os negócios das duas empresas.

O presidente do conselho da Boeing admitiu que há ainda a necessidade de convencer o governo brasileiro sobre o negócio. “O governo do Brasil tem preocupações legítimas [sobre Embraer]”, afirmou.

O Estado brasileiro detém uma “golden share”, ação com poder especial de veto sobre mudanças na companhia como, por exemplo, troca de controle acionário. “Mas estamos esperançosos que teremos um acordo”, disse o executivo americano.

Muilenburg reiterou que a empresa tem uma relação de parceria há bastante tempo com a brasileira, rebatendo a tese de que a busca de uma combinação com a brasileira foi uma resposta pontual à sociedade fechada entre a francesa Airbus, principal concorrente da fabricante americana, e a canadense Bombardier, para produção de jatos pequenos, com até 150 assentos.

Mais cedo, a Boeing havia reforçado o interesse em desenvolver formas de parcerias mais amplas com a brasileira Embraer, em busca de sinergias e oportunidades de crescimento. “A Embraer é uma parceira de longa data que tem oportunidades de sinergias”, afirmou o diretor financeiro da companhia, Greg Smith, em teleconferência de resultados promovida para analistas.

Em release de resultados, a Boeing cita medidas e investimentos que está adotando para ter posição relevante em novos mercados. “Estamos atuando de maneira ativa para nos posicionarmos em futuros mercados de crescimento, desenvolvendo novos produtos e serviços, investindo para criar capacidades verticais”, escreve o presidente do conselho da Boeing.

O executivo destaca o lançamento da HorizonX, unidade focada em inovação, e a aquisição da Aurora Flight Sciences, desenvolvedora de veículos autônomos. “Olhando para a frente, nossa equipe continua focada em ganhar inovação, gerando crescimento e produtividade e ampliando nossa posição como a principal empresa aeroespacial do mundo”, afirma Muilenburg.

Durante a teleconferência, ele apontou que a estratégia de longo prazo da Boeing não depende da Embraer. O executivo assinalou que a fabricante americana tem um programa para a aviação comercial em que busca melhorar margens e lançar produtos.

Um exemplo é a possibilidade de criar um novo modelo médio, para ocupar uma lacuna de mercado entre os atuais 737, aviões de 160 a 200 assentos, e os 787, com mais de 250 lugares. “Não temos pressa. Estamos discutindo com clientes e só lançaremos esse projeto se fizer sentido para a Boeing e para os clientes”, afirmou, ressaltando que se o programa for lançado, seria uma aeronave para chegar ao mercado a partir de 2024.

O executivo afirmou ainda que a reforma tributária nos Estados Unidos que reduziu impostos de empresas aumenta o fôlego da Boeing para investir em pesquisa e desenvolvimento de produtos.

Bombardier

A Boeing informou também que ainda não desistiu de levar adiante a disputa com a Bombardier — em que acusa a fabricante canadense de praticar dumping e receber subsídios irregulares do governo do Canadá — disse o presidente do conselho da Boeing, Dennis Muilenburg.

Depois de ganhar um primeiro round, em outubro do ano passado, quando o departamento de comércio americano aceitou as alegações da Boeing e determinou tarifas extras de 292% sobre os jatos da Bombardier, na semana passada o a Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos rejeitou a queixa da companhia de que foi prejudicada por subsídios dados à Bombardier.

“Vamos esperar a íntegra da decisão que ainda não foi publicada e deve sair em meados de fevereiro. Continuamos afirmando que a competição deve ser justa e que a Bombardier pratica dumping”, disse Muilenburg em teleconferência de resultados com analistas nesta quarta-feira.

A Bombardier é a principal concorrente da brasileira Embraer no segmento de jatos para até 150 passageiros. Em outubro do ano passado, a canadense anunciou sociedade com a Airbus para produção e comercialização desses aviões CSeries.
 

 

 

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